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O processo grupal
Autor: ANTONIO PAIVA RODRIGUES
Publicado em 24/12/2012
Visualizado 2143 vezes
Por: Antonio Paiva Rodrigues
Descrição do Material

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LANE, Sílvia T.M. O processo grupal. In: LANE, Silvia T.M.; CODO, Wanderley (orgs.). Psicologia Social: o homem em movimento.13. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001.

O processo grupal                    /              Silvia Tatiana Maurer Lane

Este trabalho é o resultado de cursos de pós-graduacão onde alunos e professor se propuseram rever a noção de pequenos grupos em função de uma redefinição da Psicologia Social, onde o grupo não é mais considerado como dicotômico em relação ao indivíduo (Indivíduo sozinho X Indivíduo em grupo), mas sim como condição necessária para conhecer as determinações sociais que agem sobre o indivíduo, bem como a sua ação como sujeito histórico, partindo do pressuposto que toda ação transformadora da sociedade só pode ocorrer quando indivíduos se agrupam.

Assim, o nosso objetivo foi dar início a uma forma sistemática de refletir teoricamente sobre processos grupais, alternando obser­vações e teorizações, na tentativa de definir algumas premissas básicas para o conhecimento concreto de pequenos grupos sociais.

Tradicionalmente, os estudos sobre pequenos grupos estão vinculados à teoria de K. Lewin, que os analisa em termos de espaço topológico e de sistema de forças, procurando captar a dinâmica que ocorre quando pessoas estabelecem uma interdependência seja em relação a uma tarefa proposta (sócio-grupo), seja em relação aos próprios membros em termos de atração, afeição etc. (psico-grupo).   

 

  (*) Este capítulo é uma revisão e ampliação do artigo "Uma Análise Dialética do Processo Grupal" por S. T, M. Lane etalii, publicado em Cadernos PUC — Psicologia, n. 11, Educ., Cortez Editora, 1981.

 

Ë nesta tradição que conceitos como de coesão, liderança, pressão de grupo foram sendo desenvolvidos em base de observações e experimentos. Tem-se assim descrições de processos grupais que permitem apenas a reprodução, através da aprendizagem de grupos produtivos para o sistema social mais amplo.

Pudemos observar que os estudos sobre pequenos grupos nesta abordagem tem implícitos valores que visam reproduzir os de individualismo, de harmonia e de manutenção. A função do grupo é definir papéis e, conseqüentemente, a identidade social dos indiví­duos; é garantir a sua produtividade social. O grupo coeso, estruturado, é um grupo ideal, acabado, como se os indivíduos envolvidos estacionassem e os processos de interação pudessem se tornar circulares. Em outras palavras, o grupo é visto como a-histórico numa sociedade também a-histórica. A única perspectiva histórica se refere, no máximo, à história da aprendizagem de cada indivíduo com os outros que constituem o grupo.

De uma outra perspectiva, encontramos alguns autores que procuram analisar processos grupais na sua inserção social e institucional, como é o caso de Horkheimer e Adorno, que vêem o microgrupo como a mediação necessária entre o indivíduo e a socie­dade e cuja estrutura assume formas historicamente variáveis.

Loureau propõe uma análise das instituições através das relações grupais que nelas ocorrem, caracterizando os grupos em termos de grupo-objeto, onde a segmentaridade se dá de forma a manter os indivíduos justapostos sob uma capa de coerência absoluta — é o que o autor denomina de grupo tipo bando ou seita. Um outro grupo-objeto seria aquele onde os indivíduos se justapõem para a realização de um trabalho e onde a divisão de trabalho determina hierarquias de poder.

É através da análise da transversalidade que se torna possível o conhecimento da segmentaridade do grupo e da sua autonomia, bem como de seus limites, condição para um grupo se tornar grupo-sujeito, isto é, aquele que percebe a mediação institucional, objetiva e conscientemente.

Também Lapassade analisa grupos quanto a sua dinâmica e seu nível de vida oculto que seria o nível institucional o qual irá determinar as características do grupo se processando numa contradição permanente entre serialização e totalização. Retoma Sartre para caracterizar a serialidade como sendo a própria negação do grupo, onde apesar de haver um objetivo comum, a relação entre os membros não passa de uma somatória, ou seja, eles formam uma série tipo primeiro, segundo, terceiro, etc. Somente quando os membros se organizam é que podemos falar em grupo que define, controla e corrige a práxis comum. Lapassade descreve, ainda, o que seria o "grupo-terror", no qual há a figura de poder que determina as obrigações e a manutenção do status quo. A este grupo se oporia o grupo-vivo, que se caracteriza por relações de igualdade entre seus membros e pela autogestão.

Ainda dentro de uma proposta dialética, teríamos a teoria de Pichon-Rivière, para quem grupo é "um conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe de forma explícita ou implícita uma tarefa a qual constitui sua finalidade, interatuando através de complexos mecanismos de atribuição e assunção de papéis". Este autor desenvolve uma técnica operativa para instrumentar a ação grupal visando a resolução das dificuldades internas dos sujeitos, que provém de ansiedades geradas pelo medo da perda do equilíbrio alcançado anteriormente e do ataque de uma situação nova (desconhecida), medos estes que criam uma resistência à mudança, dificultando os processos de comunicação e aprendi­zagem.

Desta forma, sua técnica visa uma análise sistemática das contradições que emergem no grupo, através da compreensão das ideologias inconscientes que geram a contradição e/ou estereótipos no processo da produção grupal. Para tanto, o grupo parte da análise de situações cotidianas para chegar à compreensão das pautas sociais internalizadas que organizam as formas concretas de interação, ou seja, das relações sociais e dos sujeitos inseridos nessas relações.

Por último, podemos citar o Grupo Operativo analisado por J. J;. Calderón e G. C. C. De Govia, para os quais um "grupo é uma relação significativa entre duas ou mais pessoas" que se processa através de ações encadeadas. Esta interação ocorre em função de necessidades materiais e/ou psicossociais e visa a produção de suas satisfações. A produção do grupo se realiza em função de metas que são distintas de metas individuais e que implicam, necessariamente, cooperação entre os membros.

Os autores fazem uma tipologia dos grupos em função de estágios alcançados por eles, considerando que os grupos estão em constante transformação na medida em que produzem meios para satisfação de suas necessidades. Neste processo, o primeiro estágio seria o de grupo aglutinado, no qual há um líder que propõe ações

conjuntas e do qual os membros esperam soluções; é um grupo de baixa produtividade. Num segundo momento, temos o grupo possessivo, onde o líder  se torna um coordenador de funções, e onde as tarefas exigem a participação de todos levando a maior interação e conhecimentos mútuos.

Na terceira fase, temos o grupo coesivo, onde há uma aceitação mútua dos membros, o líder se mantém como coorde­nador e a ênfase do grupo está na manutenção da segurança conse­guida, vista como um privilégio. Ë um grupo que tende a se fechar, evitando a entrada de novos elementos.

Por fim, temos o grupo independente, com a liderança amplamente distribuída, pois o grupo já acumulou experiências e aprendizagens; os recursos materiais aumentam e as metas funda­mentais vão sendo alcançadas, surgindo novas metas que visam o desenvolvimento pleno dos membros e das pessoas que se relacio­nam com o grupo. É um grupo onde as relações de dominação são minimizadas e a coordenação das atividades tende para a auto­gestão.

Os autores observam que não há tipos puros de grupos, pois estes estão sempre se processando dialeticamente, uma etapa englobando aspectos da etapa anterior.

Podemos perceber, por esta revisão de teorias sobre o grupo, uma postura tradicional onde sua função seria apenas a de definir papéis e, conseqüentemente, a identidade social dos indivíduos, e de garantir a sua produtividade, pela harmonia e manutenção das relações apreendidas na convivência. Por outro lado, temos teorias que enfatizam o caráter mediatório do grupo entre indivíduos e a sociedade enfatizando o processo pelo qual o grupo se produz; são abordagens que consideram as determinantes sociais mais amplas, necessariamente presentes nas relações grupais.

Essa revisão crítica permitiu levantarmos algumas premissas para conhecer o grupo, ou seja: 1) o significado da existência e da ação grupal só pode ser encontrado dentro de uma perspectiva histórica que considere a sua inserção na sociedade, com suas determinações econômicas, institucionais e ideológicas; 2) o próprio grupo só poderá ser conhecido enquanto um processo histórico, e neste sentido talvez fosse mais correto falarmos em processo grupai, em vez de grupo.

Destas premissas decorre que todo e qualquer grupo exerce uma função histórica de manter ou transformar as relações sociais desenvolvidas em decorrência das relações de produção, e, sob este aspecto, o grupo, tanto na sua forma de organização como nas suas ações, reproduz ideologia, que, sem um enfoque histórico, não é captada. De fato, o estudo fracionado de pequenos grupos tem endossado os aspectos ideológicos inerentes ao grupo como naturais e universais, reproduzindo, assim, ideologia com roupagem cientí­fica.

A sequência do trabalho se caracterizou pela discussão de como uma análise dialética poderia captar o grupo enquanto processo e, inserido numa totalidade maior, levar ao conhecimento dos aspectos concretos desse fato social.

Num artigo anterior, Lane aponta para a tradição biológica da psicologia como um dos maiores entraves para o estudo do comportamento social dos indivíduos, o que não significa a negação do biológico, mas da concepção que decorre desta tradição, onde o ser humano é visto como possuidor de uma existência abstrata, única, isolada de tudo e de todos. Mesmo antes do nascimento, o homem desenvolve-se biologicamente numa relação direta com seu meio ambiente, o que significa que o tornar-se homem está intimamente ligado com um ambiente, que não pode ser visto como "natural", mas como um ambiente construído pelo homem. Assim, a relação homem-meio implica a construção recíproca do homem e do seu meio, ou seja, o ser humano deve ser visto como produto de sua relação com o ambiente e o ambiente como produto humano, sendo, então, basicamente social.

O ambiente, visto como produto humano, se desenvolve a partir da necessidade de sobrevivência, que implica o trabalho e a consequente transformação da natureza; a satisfação destas neces­sidades gera outras necessidades, que vão tornando as relações de produção gradativamente mais complexas. O desenvolvimento da sociedade humana se dá a partir do trabalho vivo, que produz bens e a consequente acumulação de bens (capital), e a necessidade do trabalho assalariado; em última análise, a formação de classes sociais. Logo, as relações de produção geram a estrutura da sociedade, inclusive as determinações sócio-culturais, que fazem a mediação entre o homem e o ambiente.

Uma abordagem psicológica do ser humano teria de enfatizar necessariamente, para uma compreensão completa do homem, uma macro e microanálise, em que a primeira abrangeria todo o contexto social, estrutura, relações, etc., e a segunda se direcionaria para o homem formado por este contexto e, portanto, agindo, percebendo, pensando e falando segundo as determinações desse contexto, que, atuando como mediações, foram internalizadas pelo ser humano.

O indivíduo, na sua relação com o ambiente social, interioriza o mundo como realidade concreta, subjetiva, na medida em que é pertinente ao indivíduo em questão, e que por sua vez se exterioriza em seus comportamentos. Esta interiorização-exteriorização obe­dece a uma dialética em que a percepção do mundo se faz de acordo com o que já foi interiorizado, e a exteriorização do sujeito no mundo se faz conforme sua percepção das coisas existentes.

Assim, a capacidade de resposta do homem decorre de sua adaptação ao meio no qual ele se insere, sendo que as atividades tendem a se repetir quando os resultados são positivos para o indivíduo, fazendo com que estas atividades se tornem habituais.

Todos os processos de formação de hábitos antecedem a insti­tucionalização dos membros, esta ocorrendo sempre quando as atividades tornadas hábitos se amoldam em tipos de ações que são executadas por determinados indivíduos. Assim, a instituição pres­supõe que, por exemplo, o dirigente e o funcionário ajam de acordo com as normas estabelecidas, e assim por diante. É importante notar que essas tipificações são elaboradas no curso da história da instituição, daí só se poder compreender qualquer instituição se aprendermos o processo histórico no qual ela foi produzida.

Também é importante ressaltar o fato de que, quanto mais solidificados e definidos forem esses padrões, mais eficiente se torna o controle da sociedade sobre os indivíduos que desempenham esses papéis.

O estabelecimento de papéis a serem desempenhados leva à sua cristalização, como, por exemplo, o papel da mulher enquanto formas de ser e agir. Essa cristalização faz com que os papéis sejam vistos como tendo uma realidade própria, exterior aos indivíduos que têm de se submeter a eles, incorporando-os. Esta incorporação dos papéis pêlos indivíduos realiza-se sob a forma de crenças e valores que mantêm a diferenciação social, visto estar fundamen­tada na distribuição social do conhecimento e na divisão social do trabalho.

Desta forma, o mundo social e institucional é visto como uma realidade objetiva, concreta, esquecendo-se que essa objetividade é produzida e construída pelo próprio homem.

Cabe à Psicologia apreender como se dá esta internalização da realidade concreta e como ela faz a mediação na determinação dos comportamentos do indivíduo.

O ponto inicial do processo se dá a partir do nascimento do homem, sem condições físicas que permitam a sua sobrevivência isoladamente, o que exige uma disponibilidade para a sociabilidade, para tornar-se membro de uma sociedade. A introdução do homem na sociedade é realizada pela socialização, inicialmente a primária e posteriormente a secundária.

Na nossa sociedade, a socialização primária ocorre dentro da família, e os aspectos internalizados serão aqueles decorrentes da inserção da família numa classe social, através da percepção que seus pais possuem do mundo, e do próprio caráter institucional da família.

A socialização secundária decorre da própria complexidade existente nas relações de produção, levando o indivíduo a internalizar as funções mais específicas das instituições, as subdivisões do mundo concreto e as representações ideológicas da sociedade, de forma a incorporar uma visão de mundo que o mantenha "ajus­tado" e, conseqüentemente, alienado das determinações concretas que definem suas relações sociais.

Podemos então verificar que toda análise que se fizer do indivíduo terá de se remeter ao grupo a que ele pertence, à classe social, enfocando a relação dialética homem-sociedade, atentando para os diversos momentos dessa relação.

A seguir foram propostas algumas sugestões para a análise do indivíduo inserido num processo grupai, a partir do materialismo dialético.

Em primeiro lugar, devemos partir da idéia de que o homem com quem estamos lidando é fundamentalmente o homem alienado, embora essa alienação possa assumir formas e graus diferentes. Nesse sentido, suas representações e sua consciência de si e do outro são sempre, num primeiro momento, fundamentalmente desencon­tradas das determinações concretas que as produzem. Há sempre dois níveis operando: o da vivência subjetiva, marcado pela ideo­logia, onde cada um se representa como indivíduo livre, capaz de se autodeterminar, "consciente" de sua própria ação e representação; e a da realidade objetiva, onde as ações e interações estão sempre comprimidas e amalgamadas por papéis sociais que restringem essas interações ao nível do permitido e do desejado (em função da manutenção do status quo). O nível da vivência subjetiva reproduz a ideologia do capitalismo (o individualismo, o self-made-man), o nível da realidade objetiva reproduz o cerne do sistema, ou seja, a relação dominador-dominado, explorador-explorado. Naffah mos­trou, num trabalho recente, como, num sistema capitalista, os papéis sociais sempre reproduzem a dinâmica básica dos papéis históricos, ou seja, a relação dominador-dominado. Qualquer análise de um processo grupal que se apoie no materialismo dialético tem de partir, necessariamente, desses dois níveis de análise. A emergência da consciência histórica, portanto, de uma ação social como práxis transformadora, significaria o nível das determinações concretas rompendo as representações ideológicas e se fazendo consciência, momento em que a dualidade desapareceria.

Em segundo lugar, todo grupo ou agrupamento existe sempre dentro de instituições, que vão desde a família, a fábrica, a uni­versidade até o próprio Estado. Nesse sentido, é fundamental a análise do tipo de inserção do grupo no interior da instituição; se foi um grupo criado pela instituição, com que funções e finalidades o foi; se surgiu espontaneamente, que condições presidiram seu surgimento, se foi no sentido de manutenção ou de contestação dessa mesma estrutura institucional, etc. Por outro lado, dado o estado geral da alienação, toda tarefa que o grupo se propõe deve apresentar, pelo menos de início, um estado maior ou menor de alienação; isso posto, cumpre observar como a realização dessa tarefa opera nos dois níveis de análise: o da vivência subjetiva e o das determinações concretas do processo grupal.

Em terceiro lugar, a história de vida de cada membro do grupo também tem importância fundamental no desenrolar do processo grupal.Para fins de observação e análise, entretanto, poder-se-ia dizer que a história de cada um acha-se condensada, no grupo, pelo sistema de papéis que ele assume e desempenha no decorrer do processo. Ou seja, a história de cada um presentifica-se pelas formas concretas através das quais ele age, se coloca, se posiciona, se aliena, se perde ou se recupera ao longo do processo. Isso não exclui, entretanto, a necessidade de uma pesquisa mais sistemática da história de cada um, quando isso se fizer necessário.

Em quarto lugar, tomando-se os dois níveis de análise, o da vivência subjetiva e o das determinações concretas do processo grupal, é sempre ancorada no segundo nível que qualquer dialética poderá se desenvolver. Isso não quer dizer, entretanto, que esses dois níveis não se codeterminem e não se engendrem reciprocamente

ao longo do processo. Quer dizer, simplesmente, que é ao nível do desempenho dos papéis que se reproduz a relação dominador-dominado, a luta pelo poder, e que é, portanto, nesse nível que podem emergir os processos de oposição, negação, contradição e negação da negação, que constituem qualquer processo dialético.

É também fundamental o desenrolar das vivências subjetivas e das representações ideológicas do grupo, primeiramente, porque vão refletir o grau com que se mascaram as determinações concretas ou se deixam emergir como consciência prática. De forma geral, diríamos que as contradições fundamentais se dão no nível da ação e da interação grupai, onde o exercício da dominação tenderia a gerar contradição e negação da própria dominação (através dos papéis). Ora, é a dominação e o seu exercício que sustentam a representação ideológica do individualismo (na medida em que o indivíduo só pode ser "livre" e autônomo pela negação de outro indivíduo, quer dizer, pela negação na interdependência entre si mesmo e o outro). Neste sentido, as contradições emergentes nesse nível tendem a produzir outra contradição, agora entre o nível das determinações concretas e o da vivência subjetiva. Dessa segunda contradição, que chamaríamos de periférica, poderia nascer ou não um tipo de consciência prática, capaz de engendrar qualquer práxis grupal. A emergência dessa consciência pode, entretanto, ser dificultada por rearranjos ou reorganizações do sistema de representações ideoló­gicas presente no grupo, através dos próprios membros ou da instituição à qual o grupo pertence (um chefe, por exemplo, pode veicular a ideologia da instituição no grupo). Em grupos mais sofisticados, podemos ter esse nível ideológico impedindo o desen­rolar das contradições até mesmo no nível das determinações concretas, controlando o desempenho dos papéis até um ponto X onde ele não ameace a ordem instituída (aí aparece, por exemplo, a ideologia da integração grupal, da coesão, etc.).

E por último, quanto aos papéis sociais, eles aparecem enquanto interação efetiva no nível das determinações concretas, onde reproduzem a estrutura relacional característica do sistema (relação dominador-dominado); entretanto, eles também existem no nível das vivências subjetivas, enquanto representação ideológica.) Assim, por exemplo, o papel de "líder" pode, no nível das determinações concretas, exercer uma ação de dominação e ser vivido no nível das representações ideológicas como mero "coor­denador", que só quer o bem do grupo e preservar a liberdade de todos. Nesse nível os papéis funcionam como máscaras; no outro nível, o da ação, como elementos de denúncia e motores da dialética.

Estas reflexões teóricas foram se processando simultaneamente com observações de grupos em situações naturais, e numa primeira etapa, permitiram precisar dois aspectos primordiais, ou seja, como se caracteriza a participação dos membros do grupo e que seria a produção ou produto de grupo.

Quanto ao aspecto de participação no grupo, as observações feitas sugeriram de início que este poderia se caracterizar em termos de oposição e/ou conflitos, porém observações subsequentes, em outras condições, indicavam que a participação ocorria na forma de "acréscimos" ou "contribuições", dentro de um processo de comportamentos encadeados. As observações também permitiram analisar o significado de comportamentos paralelos, como comentários entre duas pessoas, que, mesmo se relacionados com o tema em discussão, só poderiam ser entendidos como participação no momento em que fossem compartilhados por todos os membros do grupo; ou seja, em nada resultaria alguém ter uma "idéia genial", se esta não fosse transmitida a todos; neste sentido, por mais "participante" que cada indivíduo se sentisse, isto não teria significado para o processo grupai: apenas a ação efetiva compar­tilhada com os outros é que poderia ser caracterizada como participação.

Outro aspecto constatado foi que o significado das partici­pações individuais, na maioria das vezes, não era dado pela situação em si, mas exigia mais informações a respeito da inserção de cada um, quanto às suas relações sociais, no contexto mais amplo (instituição) dentro do qual o grupo se processa. Caso contrário, tínhamos apenas um relato mecânico e vazio de comportamentos em sequência. Quando obtidas estas informações, ficava clara a relação entre a instituição e os papéis desempenhados no grupo, que, num primeiro momento, foram vistos como características peculiares de cada um de atuar no grupo.

As observações permitiram uma análise de participação em termos de "assumir papéis", e em que medida estes são preexis­tentes ao grupo e definidos institucionalmente, com a função implícita de reproduzir relações sociais e, como tal, mascarar as contradições decorrentes de relações de dominação existentes em papéis ditos complementares. Na medida em que os p


Comentários
RODRIGO ERASMO BARBOZA Sexta, 24/05/2013 09:06 escreveu:
MUITO LEGAL As observações permitiram um análise da realidade.
Seu nome:
  Nota:
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