Descrição do Material
A nudez da alma drogada de sabedoria
Percebe-se neste atual cenário literário uma febre por autores novos e lançamentos muitas vezes comerciais de editoras que só visam lucro imediato. Por aqui, a Bienal transcorreu como sempre: muito bem organizada, alguns novos escritores lançados e uma perceptível concorrência das editoras. Mais à frente falarei de alguns bons acontecimentos da Bienal. Porém resolvi falar de literatura americana (que adoro) porque tenho uma peça para teatro que tráz traz Burroughs em cena e esta peça está cotada para ser encenada ano que vem. Talvez. No Brasil, principalmente aqui no RJ, é muito complicado mexer com teatro porque as cartas são meio que marcadas. Aqui no blog eu me limito, como os amigos já devem ter notado, em comentar sobre autores consagrados, não por serem consagrados mas por acreditar em influências. E a literatura da década de sessenta é base incontestável para autores da atualidade. Bom, como os clássicos que não morrem jamais. William Burroughs Ensaísta, romancista, contista e poeta norte-americano. Nasceu a 2 de fevereiro de 1914, em St. Louis, no Estado de Montana. De familia rica — a do inventor da máquina de calcular Burroughs. Depois de formar-se na aristocrática Universidade de Harvard, em 1936, Burroughs passou temporada na Europa. Sua atividade literária começou sem uma motivação mais profunda, segundo ele mesmo: “Eu não me sentia compelido. Não tinha nada para fazer. Escrever dava-me algo para fazer cada dia.” Entrou, como outros escritores contemporâneos, para o mundo das drogas, e este processo acelerou-se depois de matar, acidentalmente, sua esposa. Em Almoço nu, o autor descreve brilhantemente os confusos e trágicos caminhos das drogas. Parece tema ultrapassado, mas a questão é antropológica: aí, nesta época, o mundo estava mudando e artistas europeus, norte-americanos mais destacadamente, abriram suas almas à literatura — mais contundentemente — e por isso mesmo fica fácil para o leitor entender fases e processos que deram novos rumos à literatura mundial. O personagem acorda de um pesadelo de 15 anos, quando esteve enterrado na lama das drogas. Passo a passo o leitor vai percebendo que não é apenas um depoimento de um ex-viciado, mas toda a vida de um ser humano que participou, dentre outras rebeliões, da crítica feroz ao Imperialismo norte-americano, que derruba com outros contemporâneos, valores que hoje, fora de questão, fazem e permitem que novos talentos da literatura dissertem sobre os mais variados temas — do político ao amor romântico. Mas é bom sempre lembrar que homens abrem caminhos para os próximos homens. É fato. Portanto, deixo aqui mais uma dica de boa leitura americana: Burroughs, um rico americano que ajudou a desmascarar a hipocrisia protestante dos Estados Unidos, usando, através da literatura, fortes argumentos incontestáveis. Uns trechos do livro E agora voltemos novamente ao campo de batalha. Um jovem penetra em seu confrade, enquanto outro jovem amputa a parte mais orgulhosa do estremecido desse caralho, sendo beneficiário que o membro visitante se proteja para encher o vácuo que a natureza abomina, e ejacula na Lagoa Negra onde piranhas, impacientes, abocanham a criança não nascida; aliás — em vista de certos fatos bem estabelecidos –, é pouco provável que nasça. Gente doente me enjoa. Quando algum cidadão começa a falar sobre seu câncer na próstata ou seu septo podre, soltando aquela desgraça purulenta, eu digo: ‘Você pensa que estou interessado em ouvir sua horrível condição? Pois não estou nada interessado. E agora cavalheiros — acredito que não haja nenhum travesti presente, he, he — , os senhores são todos cavalheiros por lei do Congresso, assim sendo falta só estabelecê-los como machos humanos, e positivamente neste salão decente não seria permitido nenhum ser transicional em qualquer direção que seja… Um guarda de uniforme de pele humana, jaqueta de pele preta com botões de dentes amarelos e cariados, uma camisa elástica de cobre indiano polido, calças de adolescente nórdico bronzeado, sandálias de jovem camponês malaio com as plantas dos pés calejadas, um cachecol pardo-cinza enrolado e enfiado dentro da camisa. (Pardo-cinza é uma cor parecida com o cinzento sob a pele parda. Às vezes, é encontrada em mestiços de brancos e negros, quando a mistura não funcionou e as cores se separam como azeite na água…) Leio o jornal… Alguma coisa sobre um triplo assassinato na Rue de la Merd, Paris: “Um ajuste de contas”… Passo para outra folha… “A polícia identificou o autor… Pepe El Culzito… O Cuzinho, um diminutivo afetuoso. Será que está escrito isso mesmo? Tento focalizar as palavras… mas elas se separam em mosaicos sem sentidos… Fiquem com Deus… e os beatniks forever! Em tempo: perceberam, amigos, como está chique falar em Deus? Depois de desgastadas e humilhadas, muitas teorias voltam a surpreender. Comentários
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